sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Salton Talento 2005 - Niterói e o Vinho Nacional em Pauta

TRATORIA TORTA
Já é hora de começar a investigar a gastronomia de Niterói. É claro que já andei por aqui, mas os lugares mais propícios ao vinho só começaram a ser procurados agora.
Fui na Tratotia Torta só porque era perto de casa e acabou-se tornando uma grande surpresa. Além das massas normais, de terça a quinta eles têm um festival em que você pede quantas pequenas porções quiser. Uma degustação de massas, eu diria.
O atendimento foi atencioso e impecável. Destaques culinários para o molho com couve e pato e o molho ao pesto especial, com tomate seco.
A casa promove degustações com o Celso Alzer e a carta de vinhos é bem elaborada. Alguns vinhos com preço muito acima da curva de relação com o mercado (fora de restaurante), outros com preço bem interessante.
Escolhi o Salton Talento 2005 exatanente pela sua relação com o preço de mercado. Imagino que esteja mais alinhado porque um nacional de 5 anos pode estar no limite. De fato, a rolha estava bem infiltrada e não estava completamente inserida na garrafa. Com os sinais ruins, pensei que iria ter de devolvê-la, mas encarei. Ao provar, primeiro alívio, não estava estragado.

SALTON TALENTO 2005
Ainda que no site da Salton não diga, o Notas de Degustação afirma que são 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot e 10% Tannat. Ele faz parte da linha superpremium da vinícola e só é lançado em anos excepcionais. Que eu me lembre, eles lançaram 2002, 2004 e 2005 apenas.
Havia provado o 2002 (veja) e tinha agradado com seis anos de idade, ainda que ficasse faltando alguma coisa. Este 2005, com cinco anos de idade, está inteiro, mas ficou faltando aquele algo mais novamente.
Assim que aberto, mostrou as frutas com adocicado, puxando para geléia, especiarias e acidez, sendo mais marcante aromas de café e baunilha. No gustativo, os taninos atacavam um pouco o céu da boca, todavia desconfiei que depois de aerado ele podia mostrar-se mais. Já aí, percebe-se a persistência apenas média e o corpo também mediano.
Ele muda e melhora muito com o tempo, o que é ótimo para brincar com a degustação. Surgem notas de alcaçuz e a doçura se firma como chocolate. Os taninos deixam de incomodar no céu da boca e dão uma secada geral. Parece que as características da Tannat deixam para aparecer mais tarde. Por fim, ele dá uma refrescância de fim de boca que chegou a lembrar uma menta (de que gosto tanto).
Minha impressão geral é de um bom vinho, que agüentou bem os cinco anos e que só falha no corpo mediano. No 2002 a falta de corpo também foi um problema, porém, entre os dois, fico com o 2005 e minha nota objetiva confirmou essa impressão. R$56,00. VV!87.

VINHO NACIONAL EM PAUTA
Tal avaliação o coloca entre os melhores do Brasil e é bom encontrarmos nacionais nesse nível. Não me lembro de vinhos brasileiros recebendo esse tipo de avaliação nos anos 90. Houve esforço, pesquisa e investimento das vinícolas para melhorarem a produção tupiniquim. A primeira grande safra que encontrou os produtores num patamar melhor de qualidade foi 2002.
Muitos blogs gostaram do vinho, todavia continua existindo controvérsia, como se pode ler na contundente opinião do Qvinho. Gostei do Salton Talento, embora tenha de concordar que pode estar um pouco fora de preço, um mal que é geral entre as grandes vinícolas nacionais e seus melhores vinhos. Só não é possível comparar nossa vinicultura com a dos vizinhos andinos e concluir que as empresas daqui são incompetentes. Parece que o terroir lá é melhor mesmo. Não consigo imaginar nossos "ícones" valendo de R$300,00 a R$500,00. Podemos fazer bons vinhos na casa dos R$50,00. Pena que alguns queiram cobrar R$90,00.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Barolo - Gaja Langhe Sperss 2001

No jantar de fim de ano da Confraria Bacco Ubriaco (veja o post)o português Barca Velha 2000 era a estrela da noite, causando efusivas e merecidas manifestações de elogio.
O Barolo Gaja Langhe Sperss, todavia, não agradava a mim e aos confrades. Estava fechado, não abria. Aromas e sabores não se desprendiam dele, o que me deixava intrigado, pois foram tantos Barolos até hoje e nenhum emplacava.
Trata-se de um vinho feito com uva Nebbiolo numa DOCG do Piemonte, conceituadíssima, com altas notas dos especialistas e sempre muito bem indicada. Espera-se um vinho intenso e complexo. No Decanter Wine Show do Rio em 2006 (ver Ago/06), em conversa com o Guilherme, cheguei a dizer que não sabia beber Barolos.
Felizmente, havia avisado aos confrades que chegaria atrasado ao jantar, mas que deixassem minha fração dos vinhos devidamente reservada. Jantamos, conversamos e nada do Sperss. Estar entre os amigos de confraria é muito bom e não tinha pressa nenhuma em esgotar minhas taças.
Enfim, após mais de três horas respirando no decanter e na taça, eis que surgem lampejos de vida no Barolo. Minha desconfiança virava certeza. Desconhecimento; pressa; ausência de planejamento. Algum desses fatores, ou mais de um simultaneamente, não permitiram que uma obra belíssima do mundo do vinho fosse apreciada em sua plenitude. Não era o caso de não saber beber, era de não saber servir.
Abrir uma boa (e geralmente cara) garrafa desses vinhos requer planejar a noite. Para um jantar às 20:00, é melhor abrir no máximo às 18:30 e deixá-lo perder a timidez, porque mostre suas nuances durante o evento.

GAJA LANGHE SPERSS 2001

Vinho com bela cor, brilhante. Demorou a abrir, mas uma vez "liberto" mostrou-se elegante. Junto da fruta e da especiaria, uma sensação de frescor formava o conjunto. Final perfeito, limpo e longo. R$1206,62 garrafa Magnum. WS93. VV!93-94.

Na nota o Barca Velha ainda foi melhor, contudo é necessário esclarecer que são vinhos completamente diferentes. O português é muito mais sutil e delicado. O barolo é mais denso e profundo. O Barca é emblemático do Douro, um ícone de sua linhagem. O Sperss é um excelente vinho, um bom representante de sua categoria, ainda que não seja o top do produtor.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Se cansei de Carmenèré e Malbec? Sim e Não.

Mr Elmo perguntou nos comentários de Degustação de Encerramento 2009 se "estava enjoado de carmenere e malbec", assunto que, pelo visto, gera debate no Enoteca.
Pode ser que o debate por lá gire em torno de o mercado brasileiro estar ou não inundado de vinhos chilenos, argentinos, portugueses e etc. Para mim, o mercado brasileiro de vinhos, ainda que em grande expansão, é ínfimo em relação a suas potencialidades. Cabe muito mais vinho por aqui: Carmeneres, Malbecs e tantas outras cepas diferentes. Fica para nós, apaixonados por vinhos, a impossível e "terrível" tarefa de tentar prová-las todas.

CARMENÈRÉ
Quero abordar mais, contudo, a questão de meu gosto pessoal em si. Fui defensor da carmenèré uns anos atrás e a considerava uva de custo-benefício ideal. Atualmente, ficando na comparação histórica, prefiro Merlot do Chile à Carmenèré.
Os métodos usados no vinho de Carmenèré deixam-no muito lácteo. Notas "iogurtadas e exageradas" têm sido freqüentes nos chilenos até R$80,00.
E o que dizer de Syrah e Cab Sauv? Excelentes exemplares com essas uvas são produzidos no lado de lá dos Andes. O Chile produz muitas variedades boas para ficarmos na Carmenèré.
Lembrando de cabeça de bons chilenos, temos os Montes Alpha de Cabernet Sauvignon e de Syrah e o Marqués de Casa Concha Merlot.
Há a opção também do surpreendente Von Siebenthal Parcela 7 Assemblage com Cab Sauv, Merlot, Petit Verdot e Cab Franc.
No caso da Carmenèré, portanto, é verdadeiro: cansei. Ainda que os tops não sejam tão lácteos, fica faltando algo em minha opinião, vide meu comentário sobre o Carmín de Peúmo na Degustação de Encerramento 2009.

MALBEC
Já os Malbecs não me cansaram, não. Continuam a cair muito bem, ainda que outras cepas e combinações argentinas também não fiquem atrás.
Gosto muito dos nascidos em Luján de Cuyo e, mais particularmente, em Perdriel. Um bom exemplo da região é o Ave Premium Malbec que provei recentemente e logo estará em vídeo no blog.
Entre minhas referências com outras cepas, qualquer vinho da família Zuccardi com Tempranillo me agrada, desde o Santa Julia Tempranillo-Malbec (faixa dos R$15,00) ao Zuccardi "Q" (faixa dos R$90,00).
Já o Crios Syrah-Bonarda (na casa dos R$36,00) da Suzana Balbo oferece bela acidez e equilíbrio de outra escala de preços.
Buscando na memória cortes mais trabalhados, tanto o Luigi Bosca Gala 1 - com seu corte inusitado de Malbec/Petit Verdot/Tannat - como o Norton Perdriel Single Vineyard - Malbec/Cab Sauv/Merlot - já representam bem a Argentina.

PETIT VERDOT
Agora, se tem uma cepa que está mesmo na minha preferência é a Petit Verdot. Seja em outras regiões do mundo, seja nos vizinhos andinos, os vinhos que tenho provado com sua presença no blend sempre têm ótimos resultados. Até o Terrunyo da Concha y Toro (o meu preferido entre Carmenèrés) recebe uma pitada da pequena.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Degustação de Encerramento 2009

Na sexta reunião de encerramento anual da Confraria Bacco Ubriaco, nosso presidente solene foi mais uma vez homenageado com a prova de líquidos de excelente qualidade.
Fui à Curitiba especialmente para o evento e, quando cheguei ao local, o aroma dos grandes vinhos já abertos tomava conta do ambiente; e que vinhos:



BARCA VELHA 2000
A Casa Ferreirinha foi a primeira no Douro a engarrafar vinho tranqüilo de qualidade superior. O primeiro foi lançado em 1952 e apenas outras quinze safras foram comercializadas com esse nome, criando um mito. Foi vinificado na Quinta da Leda e parcelas suas, dependendo da casta e do lote, ficaram de um ano a um ano e meio estagiando em carvalho francês em Vila Nova de Gaia. As 26.000 garrafas permaneceram em Gaia aproximadamente 7 anos antes do início das vendas. É possível que os anos de 2003 e 2007 sejam também declarados Barca Velha, contudo a Ferreirinha mantém sigilo absoluto do resultado do vinho até o lançamento. Não basta uma grande vindima, é necessário que se atinja o mais alto grau de qualidade, segundo os parâmetros da Casa.
Com origem no Douro Superior, tem Tinta Roriz (Tempranillo), Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Barroca em sua composição. A safra 1999 recebeu WS 93 e RP 94.
Veio compor a constelação maior entre os já provados do blog Viva o Vinho!, ao lado de Haut-Brion 1996, Mouton-Rotschild 1994, Vega-Sicília "Único" 1990 e Chateau d'Yquém 1998.
Vinho para ser aberto duas horas antes da degustação. Na cor, tinha um tom a menos de vermelho, levemente mais para o laranja. O aroma é notável, intenso e pode ser sentido à distância. Lembrou imediatamente Tawny, sem o ataque alcoólico. Mostra a complexidade típica destes, com licor, castanhas, tostado cítrico, talvez casca ou folha de laranja queimada (foi o que remeteu na minha memória olfativa), fruta vermelha e até um floral.
A estrutura era notável, com grande corpo e taninos doces. Vinho harmônico, com final redondíssimo e permanência ao infinito. Mais que suficientes 12,5% de álcool, EUR 198,00 (R$512,00) em Portugal. Optei por não pontuar objetivamente, mas as notas da WS e do RP para o 99 não condizem com este 2000, que é para a casa dos VV! 95-96*, chegando junto com o Vega-Sicília "Único" 1990 tomado ano passado.

GAJA LANGHE SPERSS 2001
O Sperss representou confirmação de uma suspeita que tinha com Barolos, ou Nebbiolo, e optei por fazer uma postagem a parte, trabalhando a experiência com esses vinhos.

CARMÍN DE PEÚMO CARMÉNÈRE 2005
Como é comum (e ruim) no Chile, declara uva no rótulo, mas a quantidade de outras não é desprezível. A composição é de 85% Carménère, 11% Cabernet Sauvignon e 4% Cabernet Franc, o que faz dele um vinho de corte nos fatos.
Marcelo Copello (MC) o considera mais elegante que o Clos Apalta. Para Patrício Tápia (PT), do excelente guia Descorchados, foi o segundo melhor do Chile em 2009, perdendo apenas para o Almaviva 2006. Na Wine Spectator, que considerou o Clos Apalta 2005 o vinho do ano no mundo, o Carmín tem 94 pontos.
Vinho roxo, escuro, absorve toda a luz. Aroma doce, ameixa preta, com referência direta a calda de fruta e doce de fruta, revelando o amadurecimento da Carménère. Pareceu meio preso o tempo todo. Corpo pesado, concentrado, final correto e sem amargor, apesar de toda a doçura. Reconheço os baixos rendimentos e a qualidade da uva, mas não me empolgo tanto como os críticos. R$663,00. MC 95, PT 95, RP 97 e WS 94. Tem a cara dos vinhos ultra-concentrados para notas do Parker. Prefiro os mais elegantes. Não pontuei objetivamente, mas fico com a parte de baixo da crítica (que não é pouco) VV! 93-94*.

ARROBA MALBEC ROBLE 2006
Arroba é um vinho diferente. Carlos Balmaceda produz apenas 5000 garrafas, resultado de vinhedos que seleciona nas altas regiões de La Consulta e de Luján de Cuyo, no distrito de Mendoza. 25% do vinho fica 12 meses em barricas francesas novas e outra parcela permanece em tanques maiores de carvalho.
Na cor é bordô escuro. Tem aroma intenso e elegante, com bela integração da fruta com a madeira. Claro que não tem a mesma permanência, estrutura e profundidade que os demais degustados nessa noite, mas no aroma não ficava tão longe assim o colocando como excelente custo-benefício. 14,1% de álcool. R$160,00 a garrafa Magnum na Berenguer Imports. Minha pontuação ficaria na casa dos VV! 88-90*.

NIEPOORT 10 YEARS TAWNY
Alguns Tawnys trazem, junto da complexidade do envelhecimento e da madeira, um ataque maior em boca. Este mantém as características de tawny, mas traz a elegância e a facilidade de beber de um Vintage. Apresenta as conhecidas castanhas e casca de laranja somadas ao doce. A experiência gustativa é surpreendente, sem nenhum ataque, com destaque para o final permanente, doce e macio. 17,5% de álcool. R$ 160,00 na In Vino Veritas. WS 95, para mim nessa faixa também VV!94-95*.



*Não avaliei objetivamente, todavia coloquei minha impressão subjetiva expressa em pontos junto ao relato, ao lado da pontuação objetiva da crítica especializada.

Nota sobre a foto: Magnum Les Terrasses 2004 Priorat é a primeira garrafa da direita, mas optamos por não abri-la em nome da sanidade.

Voltando ao blog

O pessoal chegou a ficar peocupado. Fiquem tranquilos enoamigos do blog Viva o Vinho! Continuo provando nossa bebida, só não estava mais postando aqui. Simplesmente não deu mais para publicar, porém vou colocar a culpa no ano de 2009 (risos), que reservou surpresas e lançou desafios para 2010.
Isso incluiu uma mudança profissional repentina de Curitiba para o Rio de Janeiro. Ainda não estou completamente adaptado à nova cidade, todavia já estou preparando materiais para retomar essa gostosa atividade na rede que é blogar.
Sem mais delongas, a postagem seguinte será sobre mais uma comemoração de encerramento de atividades da Bacco Ubriaco.

sexta-feira, março 27, 2009

Viagem ao Vale do São Francisco

Neste sábado 28/03 embarco para o Nordeste, afim de visitar vinícolas no Vale do São Francisco e curtir uns dias de viagem.
A agenda enológica ficou para a semana que vem, entre os dias 03 e 04 de abril, quando agendamos visitas à Vinhos Bianchetti e à Vinibrasil (Adega do Vale e Rio Sol). Com a Miolo, ainda falta confirmação da parte deles, mas tudo indica que fecharão a agenda.
Mandei e-mail às quatro empresas cadastradas pelo site da VinhoVasf, todavia os contatos virtuais não devem estar atualizados porque só duas responderam minha solicitação.
Meu plano era visitar quatro estabelecimentos, porém o preparo para o enoturismo e a abertura para receber visitantes pelo visto não está no nível propagado pelas notícias que encontrei em jornais e revistas.
Farei entrevistas e "clips" para divulgar no blog, que funcionará também como diário de viagem nos dias de Petrolina e arredores.
Acompanhem o andamento da aventura enológica aqui no Viva o Vinho!
Brindes!

quarta-feira, março 25, 2009

Encontro de Enoblogs

Tive o prazer de degustar vinhos com Cristiano Orlandi do Enoblog Vivendo Vinhos e nossas respectivas esposas no Edvino, em fevereiro, na sexta de Carnaval.
O Cristiano veio a Curitiba no feriado e aproveitamos para conhecermo-nos pessoalmente e ampliarmos o intercâmbio que já acontecia pela internet.
O clima foi casual. Não avaliamos formalmente nenhum líquido, apenas conversamos sobre nossas preferências, trocamos impressões e conhecemos mais sobre a história de vida de cada um e de como nos apaixonamos (por nossas mulheres e pelo vinho, risos).
O Cristiano é esse mesmo cara do blog: animado, divertido e relax. Excelente companhia para uma noite descontraída. Desde que postei sobre o Edvino ele havia demonstrado interesse em conhecer o "Bar de Vinhos, Restaurante e Etc..."
Aproveitamos que o Cris não é de frescurar (até pela família gaúcha, risos) e propusemos que pedíssemos taças e trocássemos, assim a cada rodada provaríamos muitos vinhos. O sempre solicito sommelier Ewerton estava presente e já começou nossa noite ofercendo o espumante Alto Vale, novo efervescente da Casa Valduga.
Em nossa primeira rodada, pedimos três vinhos completamente diferentes. O clima era razoavelmente quente e queria algo refrescante, mas o Sauvignon Blanc neozelandês Matariki estava em falta, portanto acabei indo para o Chardonnay californiano mais leve da Painter Bridge. Pedimos também o Santa Digna Gewurztraminer e o rosado La Fleur de Pulenta. Para mim, destaque para o rosé que estava com taninos bem redondos e aroma adocicado, muito fácil de beber.
Na rodada de tintos, vieram o elegante Chatêau Cantegril (disparado o melhor dos três, se é que dá para comparar), o diferente Chatêau Kefraya e o barbaresco Dezzani, com a acidez agradável que os italianos possuem.
Destaco o Chatêau Kefraya pela exclusividade. É um vinho libanês do Vale do Bekaa, feito com Mouvédre e Syrah, cepas típicas do Rhône. Para comparar, tomemos como exemplo um corte semelhante de que gosto muito, o sulafricano Wolftrap. O Kefraya é mais doce e menos ácido. Diferente e interessante.
Por fim, terminamos a noite com tábua de queijos e Madeira Justino´s 10 anos. Já havia provado com queijo de cabra e funcionou, mas a tábua acabou provando que nem todo vinho combina com qualquer queijo. O Reblochon e o Grana estavam ótimos, ainda mais com o mel trufado, contudo com o vinho não funcionou. A harmonização era Madeira com o queijo de cabra mesmo.
Claro, depois vieram sobremesas de ajoelhar a cada colherada. A noite voou e, quando vimos, eramos os últimos do restaurante, após mais de três horas de brincadeiras enológicas. Nem um incidente no restaurante que nos obrigou a mudar de mesa ofuscou a alegria de ter conhecido pessoalmente o enoamigo de Campinas (mais precisamente Valinhos, como descobrimos). Será um prazer marcar novas degustações com o blog Vivendo Vinhos.

segunda-feira, março 09, 2009

Sémillon

Em sua Degustação #136, a longeva Confraria Bacco Ubriaco provou australianos de Sémillon.
O Confrade responsável ainda nos agraciou com instrutiva e divertida brincadeira: ao final da degustação dos australianos, fizemos nosso próprio corte de vinho misturando um Sauvignon Blanc com um Sémillon em diferentes proporções: 80/20, 70/30 e 40/60. O objetivo era reproduzir o corte mais comum em Bourdeux e também brincar com outras possibilidades.
O evento foi realizado na Adega Don Maximiliano, nova loja de vinhos de Curitiba, nas proximidades da Praça Espanha.

COLONIAL ESTATE EXPATRIÉ RESERVE 2006
Excelente vinho do quente Barossa Valley. De aparência palha, tem belo aroma com excelente intensidade. Remete a própolis, fruta bem fresca, boa acidez e um confeitinho. Boca ácida e doce ao mesmo tempo, com corpo bom e leve excitação da língua. 13,5% de álcool. RP 90. BU 87,33. VV! 89. R$109,00 na Vino!Champagnat.

STEVENS SINGLE VINEYARD 2002
Este vinho da Tyrrel´s, feito no Hunters Valley, era palha bem clarinho. Intensidade média num aroma difícil de definir. Unindo fruta e tostado, compôs um conjunto mais profundo, talvez com avelãs e flores. Pensando bem, lembrava queijo roquefort. Muito mineral e seco no palato, bem leve, faltou um pouco de complexidade no retrogosto. 10% de álcool. BU 86,85. VV !86. R$94,00.

LENSWOOD 2000
50% descansou em carvalho por 8 meses. Aparência já dourada do envelhecimento. Muito própolis, algum químico incômodo e fruta branca rumando para pêssego em calda. Certa potência em boca com desequilíbrio alcoólico. Infelizmente, o tempo desse vinho já passou. BU 87,14. VV!85. R$100,00.

A impressão final é de que os australianos de sémillon provados funcionam melhor mais jovens, preferencialmente até 5 anos de idade.

domingo, março 08, 2009

Mapa da Argentina

Citamos na VÍDEO DEGUSTAÇÃO #2 as diferentes regiões vinícolas na Argentina. Este mapa ilustra com clareza as principais áreas de produção de vinhos finos.


Fonte:www.academiadovinho.com.br

sábado, março 07, 2009

Vídeo Degustação #2 - Alta Vista Premium Torrontés 2006

Assista à segunda Vídeo Degustação do blog Viva o Vinho! Provei o 27º vinho da Confraria Brasileira de Enoblogs, indicação do vivendovinhos.blogspot.com.


quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Marques del Turia Bobal-Syrah 2006

O blog Viva o Vinho! publica o que não beber também. Com muita coragem vamos encarar a descrição deste vinho!
Comprei o Marques del Turia no evento de vinhos do Angeloni, na temporada de inverno de 2008, quando os mercados fazem eventos para chamar atenção do consumidor.
Na hora considerei o vinho mais barato da vinícola razoável (que estava sendo servido) e resolvi trazer o intermediário para provar em casa, mas com uma pulga atrás da orelha porque, dependendo da ocasião, certos vinhos passam por melhores do que realmente são. Você está ali no evento, curtindo uma noite de vinhos. Tudo acaba parecendo um pouco melhor do que uma análise mais atenta revelaria.
E foi o caso do Marques. É um tinto meio Syrah, meio Bobal, da Denominação de Origem Valencia, na Espanha. Aparetemente, Bobal é uma cepa comum na região. Vinho com aroma químico e incômodo. Desequilíbrio alcoólico evidente já no olfato. Aquece as narinas e dá sensação ruim. Lembra vinhos de Izabel, Bordô e cia. Confirma a péssima sensação olfativa no palato. Fiquei surpreso com o resultado da pontuação objetiva. Parece ter pouca relação com vitis vinifera. 12,5% de álcool. VV!70.

Não quero, contudo, desestimular as aventuras. Quanto mais provarmos e ampliarmos nosso leque de experiências, mais seremos capazes de entender dos mistérios dessa bebida tão deliciosa e tão complexa.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Doña Dominga Viogner Reserva 2006

Tenho feito umas experiências, tentado provar coisas diferentes. Tem um prazer a parte encontrar com micos. É claro que prefiro vinhos gostosos, equilibrados, elegantes, ..., mas quando encontramos um tenebroso pela frente relembra o que é um vinho ruim e ajuda a manter o censo crítico.
Doña Dominga Viogner é um daqueles "não bebo mais". Chileno de Colchagua, apresentou aroma frutado e fresco. Sem grandes defeitos, mas sem a complexidade esperada na Viogner.
Decepção total e imediata no gustativo. Vinho com adstringência e ataques inadequados. Desequilibrado. Um roubo!!! R$28,00 no Condor Boa Vista!!! VV!74. "Bacco tenha piedade".

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Rosé de Fevereiro

Ótima idéia da Confraria Brasileira de Enoblogs de provar rosé. Sou dos que não aderiu ainda aos rosados, pois não encontro sempre algo que me chame a atenção e se quero algo mais leve que o tinto, acabo rumando para o branco e o espumante.
Como recebi amigos em casa, necessitava de mais vinho e acabei comprando dois: um mais dentro da proposta de rosé até R$25,00 e outro pouco mais caro. Procuro sempre tomar mais de um rosé para poder comparar.

RIO SOL ROSE 2006

Este vinho do Vale do São Francisco tinha cor rosada, com ares de casca de cebola, belo aspecto. Aroma delicado, simples e doce. Boa acidez e boa fruta no palato, também muito simples. Não tem amargor ou defeito, nem mesmo um ataquezinho tânico que aparece em alguns rosés, mas lhe faltam qualidades. Correto e sem compromisso. R$28,00 no Wall-Mart Juvevê. VV!80. (Como o Wall-Mart é o hipermercado mais caro que conheço, deve ser encontrado com facilidade por R$25,00.)

SANTA RITA 120 ROSE 2006
Considero a linha 120 da Santa Rita uma ótima opção para quem quer provar vinhos levemente mais caros, mas que demonstram boa qualidade e não costumam dar a sensação de que foi dinheiro jogado fora. São ótimos na sua faixa de preço.
O rosé de Cabernet Sauvignon manteve a boa imagem dos outros vinhos já degustados da vinícola. Cor mais rosada que o Rio Sol. Aroma mais a groselha, frutado e revelando acidez. Intensidade média.
Boca ácida, com leve tanino que não incomoda. Gostei do vinho e posso vir a tomá-lo mais vezes. Simples e agradável. R$34,00 no Wall-Mart Juvevê. VV!83.

sábado, janeiro 10, 2009

Argento Reserva Chardonnay 2007

E não é que a Argento faz um branco razoável também! Na Retrospectiva 2008 meu vinho barato do ano é o Argento Reserva Bonarda. Por acaso, acabei provando neste janeiro mais quentinho em Curitiba o Char.
Cor amarelada com certo aspecto untuoso. Aromas bem frutados e média complexidade, com pamonha (milho), fruta branca e frescor. O paladar confirma a acidez do frescor. Tem um peso indesejado, sempre presente em Chars baratos, e um pequeno defeito no fim de boca. Nada que desmereça o vinho em função do preço.
Excelente pedida de char custo-benefício. Mais uma bola dentro na linha Reserva da Argento. R$19,90. VV!82.
Para uma referência do que espero de Chardonnay ler o post Dois Brancos Franceses

terça-feira, janeiro 06, 2009

Concha y Toro Reservado Carmenere 2005

Se 2009 começou bem com o Amat, já surgiu o primeiro mico do ano:

A megavinícola Concha y Toro é conhecida por fazer produtos confiáveis em várias faixas de preço. Costumo dizer que a carmenere é a uva custo-benefício, mas não foi o caso deste 2005 do Valle Central.
A cor era bordô, bem típica da carmenere. Aromas de frutas vermelhas doces. Cereja fresca bem adocicada. Vinho estranho. É macio, doce, sem grandes ataques disso ou daquilo, contudo sem grandes qualidades. Falta corpo e estrutura.
Tem algo incômodo nele. Tem aquele aroma vegetal que seria muito mais adequado na seção de vegetais da mercearia do que em vinhos. O 2005 definitivamente não volta para minha adega. 13% de álcool. R$19,00. VV!77

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Amat Tannat 2002

O primeiro vinho de 2009 é o tannat uruguayo Amat 2002, feito pelas Bodegas Carrau em Cerro do Chapeu. Para degustá-lo pela segunda vez, precisei encomendá-lo no Angeloni, pois não há muitos mais nos estoques da rede.
Como o nome diz, a tannat é uma variedade bem tânica que assume uma expressão mais forte e concentrada no Uruguay.
Este era escuro e complexo, com aromas de geléia de frutas vermelhas (amora). Abre para chocolate e tem um fundinho de defumado. Intensidade média.
Os taninos foram bem equilibrados por boa estrutura e corpo que, com sua potência, sustentaram o conjunto. Destaque para a ótima persistência.
Acompanhou muito bem grossos mignons mal passados em cama de champignons e legumes salteadas na manteiga com tomilho.
Uma boa estréia para o 2009 enológico. 14% de álcool.
WS87 VV!88

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Retrospectiva de 2008

Foi um ano enológico sensacional. Das centenas de rótulos, selecionei o que foi melhor e mais representativo neste post porque as viradas de ano sempre pedem um balanço do que aconteceu nos últimos 365 dias. Participei de um evento incrível - o Decanter Wine Show - e pude provar vinhos dos sonhos nas confrarias das quais sou membro.
Apresentarei os 3 escolhidos do ano, tintos divididos por faixa de preço, nacionais, alguns brancos e, por fim, o de sobremesa. Esta retrospectiva não significa que os aqui indicados foram os únicos de que gostei, mas pinça alguns dos grandes provados no ano.
Antes de selecionar por faixa, tem três líquidos que descobri em 2008 que desejo que rondem com frequência minha adega.

OS 3 ESCOLHIDOS DE 2008
Meu grande vinho do ano que passou é SCHILD ESTATE SHIRAZ 2005 R$102,00 VV!93 WS93. Australiano de Barossa que empolgou e tornou-se inesquecível.


Não entro na fissura de provar tecnicamente todos os vinhos. A seriedade da degustação e a tentativa de expressar numericamente a qualidade da bebida são um prazer diferente de beber sem estressar muito. É claro que, enquanto curto, estou com a cabeça funcionando, entretanto só o fato de não estar anotando todos os detalhes e só bebericando a taça já fazem a experiência mais tranquila.
Foi numa situação dessas que encontrei com o africano THE WOLFTRAP 2005. O único na faixa dos R$50,00 que mereceu destaque. Assim que senti a acidez, a delicadeza e seus aromas apimentados, trouxe garrafas para minha adega.

ALAIN GEOFFROY 2005 AOC CHABLIS. A experiência de provar um branco de Chablis é interessantíssima. Fino e delicado na faixa dos R$80,00 VV!90.

O NACIONAL DE 2008
Entre os nacionais provados, encontrei equilíbrio e qualidade no Miolo Lote 43 2004. Custou R$80,00 e pontuei VV!88.

ESPUMANTES DE 2008
Nos espumantes, sou fã de carteirinha há anos da Cave Geisse na faixa dos R$50,00 e, para não ser tão repetitivo, degustei em duas ocasiões a Salton Reserva Ouro. A segunda garrafa era completamente diferente da primeira e, aquela sim, o que esperava da Salton. R$23,00.

Por faixa de preço:
- ATÉ R$25,00
Entre os excessos de álcool, desequilíbrios e outros problemas, encontrei um vinho barato que me agradou. ARGENTO RESERVA BONARDA 2007 me pegou de surpresa. Comprei para provar a uva e a acidez da varietal ajudou muito. VV!83 R$19,33.
- DE R$25,01 A R$50,00
A Bonarda argentina aparece de novo no CRIOS SYRAH BONARDA 2005 de Susana Balbo. Como bebi em restaurante paguei um pouco mais caro, mas já comprei outros Crios por R$36,00.
- DE R$50,01 A R$150,00
Infelizmente, a faixa dos R$50,00 a R$80,00 teve apenas o Wolftrap. Fico na dúvida se deveria ter procurado mais nesta faixa ou se não estão muito interessantes mesmo, valendo a pena economizar num mais barato de nível semelhante ou gastar um pouquinho mais em algo bem melhor.
Já nos R$80,00 encontramos dois chilenos muito bons e um português na gama superior de preço:
MONTES ALPHA CABERNET SAUVIGNON 2005 R$80,00 VV!90. Arrebatou com sua menta na primeira cheirada... e dizem que o Shiraz é ainda melhor.
MARQUES DE CASA CONCHA MERLOT 2005 R$78,00 WS90 BU89,42 VV!92. Está pronto.
DORINA LINDEMANN RESERVA 2004 Aragonês e Touriga Nacional bem delicado do Alentejo, que rivalizaria com Schild State o posto de vinho do ano. Pena que o preço pesa um pouco mais.R$150,00 VV!91
- MAIS DE R$150,01
Vinhos estratosféricos foram degustados, contudo selecionei poderosos líquidos que jamais serão esquecidos:
O ano já começou com o TIGNANELLO TOSCANA IGT 2003 R$345,00 VV!92 e terminou no fantástico jantar de encerramento da Confraria Bacco Ubriaco com o MOUTON ROTHSCHILD 1994 AOC PAUILLAC RP91 WS91 VV!94 R$1350,00. Na mesma ocasião, degustei o VEGA SICÍLIA "ÚNICO" 1990, simplesmente a maior nota concedida em vinho que já sorvi até o momento. R$3000,00 garrafa magnum. WS95 RP95 VV!95.

BRANCOS
Foi numa tarde de sol em fevereiro que tomei dois ótimos brancos com preço convidativo:
Finca La Linda Chardonnay 2006. R$29,66 VV!87
Escorihuela Gáscon Viogner 2007. R$30,00 VV!87

SOBREMESA
Tomei alguns vinhos doces em experiências que ainda não vieram para o blog. Delas posso destacar o Château de Malle 2003 Sauternes com seu aroma de chocolate branco e final de boca amendoado. R$150,00 VV!91.

DECANTER WINE SHOW
Não posso deixar de rememorar o evento que marcou o calendário enológico de Curitiba. Dos mais de 300 rótulos disponíveis, consegui degustar 46 e deles escolhi, entre vinhos fantásticos, o toscano Cerviolo IGT 2001 como o destaque.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Terranova Blanc de Blancs Charmat

A linha Terranova popularizou o ensolarado Vale do São Francisco no mundo do vinho. Assim como no RS, a Miolo declara o ano da tiragem das espumantes do NE no envólucro. Atitude ética, para que saibamos se não estamos comprando garrafas muito antigas. A Confaria Brasileira de Enoblogs propõs que neste mês de dezembro provássemos espumantes acessíveis da escolha de cada blog. Já estamos no segundo (vide Salton Moscatel) e vamos tomar outros, com certeza.
Esta Blanc de Blancs era de Tiragem 2008, ou seja, do ano. A vinícola justifica o corte diferente de Chenin Blanc, Sauvignon Blanc e Verdejo pela boa adaptação dessas uvas a regiões de muita ensolação. O espumante tem cor amarelinho palha e pérlage média. Ao abrir demorou um pouco para sentir os aromas, pois estava fria demais. Espumantes brut não necessitam ser servidos ultragelados. Quando encontramos com os aromas, apresentou fermento e citricidade.
No paladar, tinha discreta cremosidade. Era adstringente, com nozes e fermento. Espumante adequada ao seu preço. 12% de álcool. VV!81. R$16,99 no Festval Água Verde.

sábado, dezembro 20, 2008

Salton Moscatel

Vamos provar mais esta moscatel para comparar com outras degustadas no passado.
Cor palha meio acizentada. As bolhas duraram pouco, apesar de ser Lote 08. Aromas de intensidade média. Para mim, moscatéis lembram gengibre em geral. Aqui, em Curitiba, há uma fábrica de refrigerantes que faz a gengibirra e as semelhanças são grandes.
Além de gengibirra, lembrou maçã. Vale a pena sentir o cheiro de um sachet de chá de capim cidreira, parece que a Santon Moscatel foi feita do chá.
A falta de borbulhas é sentida no paladar também. É bem doce e falta acidez para compor. É necessário servir BEM GELADA para a doçura e a falta de acidez serem compensadas pela temperatura. Esta moscatel não sobreviveu à análise técnica, mas não é de todo ruim. 7,5% de álcool. VV!74. R$15,40.
A primeira moscatel que tomei foi a Terranova. Àquela época, empolgou pela intensidade dos aromas. Com o tempo, passei a achá-la meio enjoativa, um perfumão. A Salton é um pouco melhor. Entre as nacionais que provei, fico com a Aurora Moscatel por ser mais delicada.

sábado, dezembro 13, 2008

Noite dos Sonhos

Quando pensava em Château D´Yquem, nunca imaginava que provaria tal botrytizado mitológico tão cedo.
Agora, imaginar que degustaria na mesma noite Vega Sicília "Único", Mouton Rothschild e Château d´Yquem não estava em meus devaneios mais absurdos.

Felizmente pertenço a um grupo de ousados amantes do vinho. A Confraria Bacco Ubriaco tem evoluido passo-a-passo nesses 5 anos e meio de vida. Estou certo de que nosso Presidente - a divindidade clássica responsável pela mágica transformação de uvas em vinho e pelos plácidos efeitos do álcool - tem muito orgulho destes confrades que apreciam a arte da boa bebida e da boa gastronomia.
Fomos, mais uma vez, muito bem acolhidos no Edvino e agradecemos ao sommelier Ewerton Antunes e equipe pelo sempre impecável atendimento. Sem esses profissionais dedicados certamente não poderíamos curtir plenamente tais presentes de Bacco, em noite na qual o Viva o Vinho! emplacou pela segunda vez líquidos de mais de 93 pontos (quatro de uma vez só!!!), sem contar o Haut-Brion de 2007 que não foi avaliado em nota.

CAVE GEISSE BRUT CHAMPENOISE 2005
Mesmo antes de ingressar na Bacco Ubriaco, quando era solitário nos estudos enológicos, já considerava Cave Geisse o melhor espumante nacional que conhecia. Essa garrafa com expedição em 2005 foi para confirmar mais uma vez que é produto de excelente qualidade e pode competir com os melhores do mundo. Não esperava encontrar um espumante nacional de 2005 inteiro ainda. Temos de começar uma campanha: "Abaixo às Cavas, Chega de Prosecco. Temos Cave Geisse".
Brincadeiras a parte, vamos ao vinho: Borbulhas finas e abundantes. Aroma intenso e excelente, como sempre. Notas amendoadas, de fermento e de pão. É macio em boca e, ainda assim, tem ótima acidez. Final correto, com excelente mineral. Sou fã! R$62,00 no Edvino. VV! 90.

VEGA SICÍLIA "ÚNICO" 1990
Tive o prazer de tomar a garrafa Magnum Nº001331. Como discordar do nome? Este "Único" da Ribera del Duero só é engarrafado em anos especiais. Quando não atinge os requisitos mínimos de qualidade é lançado somente o Valbueña 5. Nos anos em que é "Único", a primeira garrafa é solenemente entregue ao rei da Espanha.
Entre as particularidades de sua produção, não recebe um tratamento apenas. Enquanto envelhece em contato com o carvalho, pode passar por várias qualidades diferentes de madeira e pode ser trasfegado de tanques grandes para barricas de 225 L e retornar aos tanques tantas vezes quantas os enólogos considerarem pertinentes para conseguir a personalidade desejada. Grandes safras: 1994, 1990, 1986, 1979, ...
Ele estava belíssimo. Ninguém diria que é um vinho de 18 anos!!! Ruby ainda brilhante, com alo. A intensidade vai aumentando, abre bem tabaco. Grande aroma com especiarias, frescor e geléia de fruta que vai ficando cada vez mais doce.
Boca com bela acidez, maciez elegante e final longo incrível. Tem um calor no início da prova, mas que não deixa qualquer amargor, apenas revela a potência e a estrutura. 13,5% de álcool. R$3000,00 na In Vino Veritas. WS 95. RP 95. VV! 95.

MOUTON ROTHSCHILD 1994 AOC PAUILLAC
Um dos 5 Premieurs Crus da classificação de Bourdeux (Médoc) de 1855. Aliás, o único que foi incluido após 1855, elevado apenas em 1973. Muitos acreditam que tenha ficado de fora em 1855 porque o Château Mouton Rotschild tinha passado para controle de capital inglês. Foi o primeiro Château da região a engarrafar uvas próprias, "mis en boteille au château". Tem a bela tradição de estampar nos rótulos de cada safra uma obra de artista contemporâneo. Nossa garrafa foi agraciada por arte do pintor holandês Apel.
Entre as características da produção, destacamos que o vinho é feito em tonéis de carvalho e depois envelhece em barricas também produzidas no próprio château.
Comparando as duas estrelas tintas da noite, confesso que prefiro o Mouton ao Vega. O francês nem é de grande safra, mas mesmo assim tinha um paladar fantástico, delicado, complexo, muito mais ao meu gosto: menos bombástico e mais estiloso. E olha que 1994 foi safra somente mediana para os parâmetros de Mouton Rothschild. Dá para imaginar o que devem ser os excepcionais: 2000, 1996, 1989, 1988, 1986, 1982, 1976, 1961, ...
Belo brilho, pequeno alo e muita geléia. Demorou muito a abrir, mas nos revelou defumado, cassis, pimenta preta e fumaça doce. Boca delicada, deliciosa, com leve mineralidade que marca a complexidade gustativa. Excelente permanência. 12,5% de álcool. R$1350,00 no Edvino. WS 91. RP 91. VV! 94.

MANOIR DE GAY 2004 AOC POMEROL
Um pouco mais claro, com cor mais rosada, bem diferete dos Merlots do cone sul-americano. Aroma delicado, floral, morango. Paladar agradável e fresco, mas com taninos ainda vivos, que denotam mais um tempo de guarda. Não quero dizer que não está pronto, pelo contrário, pode ser bebido ou guardado. R$260,00 na Vino! Batel. WS87. VV! 90.

CHÂTEAU FOMBRAUGE 2001 AOC SAINT-EMILION
Em Saint-Emilion o corte de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc é clássico. Pode-se encontrar algum percentual de Malbec, às vezes.
Cor bem mais escura. Aroma de ameixas pretas muito bem amalgamado na madeira. Ótima intensidade e bem complexo, com algo de terra molhada. Boca agradável, com excelente corpo e certo mineral. WS 91. VV! 93.

CHÂTEAU D'YQUEM 1998 AOC SAUTERNES
O sudoeste da França é uma das regiões do mundo onde as uvas brancas são atacadas pelo fungo Botrytis Cinerea. Ele afeta a casca fazendo micro-furos que deixam escapar água do fruto, restando o sumo concentrado. Os vinhos feitos dessas uvas mais doces ganham complexidade e qualidade. Sauternes é a região emblemática do estilo e o mítico Château d'Yquem reina único na classificação como Premier Cru Supérieur. Envelhece bem por décadas e, nas melhores safras, pode chegar aos 100 anos em condições de ser apreciado.
O dourado é realmente belíssimo. Remete a ouro imediatamente. Aroma de flores, frutas, mel, baunilha, chocolate branco. Tem um queimadinho que lembra o brullée. Grande permanência, doce sem excessos, elegante. Delicado pesinho em boca, com baunilha. Honestamente, esperava muito mais de um vinho tão cultuado, mas vale destacar que este tem "apenas" 10 anos de vida e 98 não foi safra excepcional. Algumas grandes são 2001, 1989, 1983, 1976, 1967, 1959, ... 13,5% de álcool. US$320,00 na França. WS 89. VV! 94.