domingo, outubro 19, 2008

Paralelos do Vinho

Em nossa primeira Vídeo Degustação publicada, tocamos no assunto dos paralelos, que definem as melhores regiões do mundo para cultivar a videira. Muitos são os fatores que influenciam a produção de vinhos de qualidade, mas a latitude onde são feitos é um aspecto a ser considerado.
A videira é planta que necessita de um descanso no inverno, reunindo forças suficientes para produzir as uvas no verão. O clima temperado é ideal para termos as estações do ano bem definidas e para o processo natural da planta trazer os melhores resultados. Tal clima é encontrado entre os Paralelos 30º e 50º.

(Reproduzido do site da Importadora Zahil: http://www.zahil.com.br/institucional.aspx?id=34)

APROFUNDANDO MAIS NO ASSUNTO:

HEMISFÉRIO NORTE
Note no mapa que a Europa encontra-se quase toda compreendida entre os paralelos do vinho (No Hemisfério Norte, região rosa claro). O extremo Norte da África e o Oriente Médio também estão compreendidos. A Europa é consideravelmente mais quente que a América nos mesmos paralelos em função do grande ciclo de correntes marítimas, que carregam para leste o calor mais equatorial do Caribe (Golfo do México) e em direção ao Atlântico Norte.
Na Europa Central planta-se mais baixo, evitando que as altitudes tornem o clima frio demais. O frio em excesso pode atrapalhar o ciclo vegetativo da planta e piorar o resultado final. Já no sul da Itália e de Portugal, procura-se regiões mais altas exatamente para diminuir os efeitos do calor mediterrânico, aqui Paralelo 40º Norte. Um exemplo é o Alentejo, com as vinícolas valorizando as terras mais altas.
Na América do Norte, que não recebe influência do aquecimento de uma corrente marítima tão importante, as regiões vinícolas concentram-se entre os paralelos 30ºN e 40ºN. No pacífico ainda se planta um pouco mais ao Norte até em função também das correntes oceânicas, mas os californianos, vinhos mais famosos mundialmente, estão na faixa mais ao sul.
A diferença que a corrente marítima do golfo faz na Europa fica mais evidente quando comparamos os Ice Wines. São vinhos doces produzidos em regiões bem frias e o congelamento é desejado. No leste canadense, onde as águas quentes e suas consequências não são sentidas, os Ice Wines são feitos próximos do paralelo 40ºN. Já na Alemanha, fazem-no perto do paralelo 50ºN, ou seja, bem mais ao Norte.
A Ásia Oriental não tem tradição histórica na produção e no consumo de vinho, mas note que a China está quase toda entre nossos paralelos. De fato, começam as notícias da vinicultura chinesa melhorando de qualidade e aumentando a quantidade produzida.

HEMISFÉRIO SUL
No Hemisfério Sul nota-se influência parecida dos paralelos. O paralelo 30ºS passa sobre o extremo sul brasileiro, deixando Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai ao sul. A campanha gaúcha é a única região brasileira que se encontra exatamente nele.
Com excessão dos vinhos da Patagônia, os demais vinhos de qualidade americanos estão ao norte do paralelo 40ºS.
Na África do Sul, planta-se no paralelo 30ºS e ao sul dele até o continente terminar no Cabo. Na Austrália, a cultura se desenvolve no extremo sul também, sempre abaixo do 30ºS. O 40ºS passa exatamente sobre a Nova Zelândia.
Ao olhar no mapa mundi, fica claro que há menos áreas continentais no Hemisfério Sul que no Norte. Some-se a isso também as grandes influências climáticas antárticas na zona temperada. Concluo, portanto, que a maioria absoluta do que é produzido no Hemisfério Sul concentra-se numa faixa ainda mais estreita do que no Hemisfério Norte, entre os paralelos 30ºS e 40ºS por duas razões bem simples, clima mais frio e menor quantidade de terra.

DESAFIO NO BRASIL: QUASE TUDO FORA DOS PARALELOS DO VINHO
Isso não significa que seja impossível fazer vinhos fora de tais marcos. Bons vinhos nacionais são feitos na Serra Gaúcha. Em Santa Catarina, nas regiões de altitude, também se buscam vinhos de excelência. A Serra Gaúcha é responsável por espumantes de qualidade internacional, o produto brasileiro mais interessante. Fica evidente, porém, a necessidade de subir a altitudes maiores para conseguir clima mais parecido com o temperado.
Não é o caso, contudo, do equatorial Vale do São Francisco. Lá, o mérito fica para o clima árido e a irrigação artificial. É por meio do controle do regime de água das plantas que definem os processos de produção de uva e descanso.
Comercialmente, é bem viável, pois são muitos os que afirmam ser possível subverter o ciclo anual das videiras para maior produção de uvas. Acredito que essa pressão maior sobre as vides não resulte em vinhos melhores, mas em mais vinho para por no mercado.
A viabilidade econômica é fato, mas não sabemos ainda qual o limite de qualidade que poderá ser alcançado pelos vinhos do Vale. Como é bem recente a produção de castas vinícolas européias, fica o desafio para os produtores.

OS PARALELOS 30º E 50º SÃO MARCOS IMPORTANTES
Com as possibilidades tecnológicas de hoje, os paralelos 30º e 50º não são mais obrigatórios para a obtenção de uma boa vide, todavia o cultivo da uva e a fabricação de vinho não são processos tecnológicos apenas.
As videiras cultivadas entre os paralelos 30º e 50º ainda são as melhores matérias-primas para a arte de vinificar, por isso os chamo de paralelos do vinho.

Para saber mais sobre latitude:
Rox Portal - Geografia

4 comentários:

Juliana disse...

Opa, legal.
Aprendendo geografia com o vinho, gostei!
Vinho é realmente uma ciência né?! O melhor é que uma delicia de aprender hehe =)

QIC disse...

Ficou excelente!!!
Parabéns pela clareza... adorei!
Beijos.

Laércio disse...

A Juliana resumiu tudo, vinho e geografia, ótimo.
Se complementado com enoturviagens, maravilha.
A pensar.

Nosso Vinho disse...

Excelente post. Parabéns.
Paulo Queiroz